(clique em cima da foto para ampliar)Foi aqui, e com este mesmo cenário, que pela primeira vez, fui à escola de S. Pedro!
Ainda me lembro como se fosse hoje. A minha mãe acompanhou-me nesta minha primeira incursão mais importante da minha vida de estudante. Fomos a pé, a escola ficava distante, no outro extremo da Vila e era bem longe da minha habitação. Havia uma outra escola, mais próxima, a de S. Roque, mas nesse tempo ninguém questionava ninguém. Era mais uma preocupação de uma mãe, sempre zelosa e preocupada com os problemas do seu filho, saber que o mesmo tinha que fazer esse percurso a pé tantas vezes ao longo do ano.
Os Invernos eram nessa altura rigorosos. Não havia meios de transporte escolares, como há hoje, e os automóveis eram um luxo só reservado aos mais abastados. As cantinas escolares onde, hoje, os alunos almoçam não chegava sequer a estar no nosso horizonte, nem sequer em forma de miragem, porque ninguém imaginava que um dia, tal, pudesse acontecer. A pobreza nessa época era muita.
Chegados à escola já havia mais companheiros da mesma aventura à espera. Éramos todos rapazes. As raparigas tal como nós, ficavam todas juntas, noutra sala. Mas o que mais me chamou a atenção era a quantidade de futuros colegas muito mais velhos do que eu, e alguns bem matulões, com sinais de puberdade estampada no rosto. A expectativa era grande para conhecer a senhora professora que na minha imaginação pensava ir ali encontrar, como sendo uma senhora de meia-idade já com cabelos brancos com ar severo, impondo com o seu aspecto toda a sua autoridade e respeito.
Lá estávamos, nós, no pátio da escola em crescente expectativa, esperando ver a senhora professora chegar a qualquer momento. Mas surpresa das surpresas, isso não aconteceu, simplesmente a porta da escola, sem que ninguém se apercebesse, abriu-se, lentamente, e apareceu na penumbra um vulto de uma jovem ainda de tenra idade que mais parecia uma, nossa, irmã mais velha. A dúvida instalou-se no meu espírito: seria aquela menina a senhora professora? Aí confesso tive pena dela, com essa hipótese. Como iria ela dominar toda aquela “malta” se fosse de facto a senhora professora? Depois das apresentações e despedidas das nossas mães, a porta fechou-se.
A resposta às minhas dúvidas, e incertezas, fiquei a conhecê-la já dentro da sala, conjuntamente com os matulões. Era, efectivamente, a senhora professora que iria dar aulas, mistas, com a primeira e a quarta classe, onde os alunos da quarta, a grande maioria, já eram repetentes depois de terem perdido um, ou mais anos. Tinha chegado o momento da verdade, onde os meus receios ficaram dissipados e bem patenteados, ali, naquele momento em frente de uma jovem de corpo franzino, com a introdução que acabara de fazer.
Ninguém poderia imaginar que estava ali uma grande mulher, a primeira aula foi a prova sintomática que a senhora professora não estava ali para brincar em serviço. A disciplina começou logo nesse primeiro dia, e iria manter-se durante todo o ano lectivo.
É certo que a mesma tinha à disposição “argumentos” que hoje estão vedados a todos os professores. Os vários tipos de réguas, e a maior e a menor dimensão dos ponteiros eram os instrumentos que lhe foram facultados por um regime, mesmo, à socapa, que não se inibia de impor a sua lei, nem que fosse necessário utilizar a violência.
A sua personalidade era tão forte e os argumentos que utilizava deixavam sem margem para dúvidas, cair por terra qualquer veleidade, por mais ténue que fosse, por parte dos alunos para poderem ter êxito, nas suas tentativas destabilizadoras, mesmo os mais rebeldes.
Ninguém ficou diminuído fisicamente por isso. Foi a melhor professora que tive, a mais rigorosa e disciplinadora que conheci, durante os meus tempos de estudante, onde todos éramos obrigados a aprender. Recordo com saudades esses tempos. Ainda hoje a senhora professora, natural de Monchique, mas vivendo fora do concelho, não se esqueceu de mim, e sempre que nos avistamos, é sempre um prazer, renovado, cumprimentar-mo-nos.







